Preferência por produtos mais saudáveis e menos calóricos ja impacta vendas de vários itens e faz empresários buscarem novos nichos

A popularização do uso das chamadas canetas emagrecedoras, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, está provocando mudanças nos hábitos alimentares de parte da população que já produzem impactos no varejo.
Consumidores que fazem uso do medicamento admitem que fizeram alterações em suas cestas de compras, que ganhou alimentos mais saudáveis, com menos carboidratos e bebidas alcoólicas. Com isso, supermercadistas já fazem adaptações, como investimentos em novos produtos, e até pensam em investir em novos negócios.
O setor já defende venda de medicamentos em supermercados há alguns anos. Recentemente, o CEO do atacarejo Assaí, Belmiro Gomes, disse que esse novo cenário incentivou a empresa a acelerar o plano de inaugurar farmácias próprias. Um projeto de lei neste sentido já está em tramitação no Congresso Nacional. A rede estruturou o projeto da Farmácia Assaí e 25 unidades devem ser inauguradas até julho dentro do complexo comercial das lojas.
Se a venda de medicamentos em supermercados for aprovada, a farmácia passaria a operar dentro das áreas de venda, ao lado de outros produtos. Além das canetas emagrecedoras, a ideia é vender também suplementos e vitaminas para esse público. Isso porque a queda na venda das chamadas “besteirinhas do dia a dia”, como doces e biscoitos, já é sentida na maioria dos supermercados, além de um menor consumo de álcool e bebidas açucaradas.
Até alimentos como arroz já tiveram queda nas vendas. O faturamento com a venda do produto foi de 36% em novembro, segundo a empresa de tecnologia de dados do varejo ScannTech, por conta da queda no preço e do volume comercializado. Por outro lado, há um aumento da procura por proteínas. Segundo ScannTech, a receita de vendas de suplementos para academia cresceu 47%, enquanto houve um aumento de 11,6% na receita com carne bovina.
As canetas emagrecedoras funcionam imitando um hormônio natural, o GLP-1, que regula a fome, e quem as usa percebe uma redução no apetite. A tendência é que a indústria de alimentos amplie a oferta de produtos ricos em proteina, voltados a usuários de GLP-1. A consultora comercial Fabiana Rosa Gonçalves de Moura garante que mudou seus hábitos alimentares depois que passou a usar a caneta emagrecedora.
“O remédio tira a vontade da gente de comer besteiras. Eu gostava muito de doce e chocolate, mas não como mais. Não sinto vontade nenhuma”, conta. Ela lembra que também comia muita carne com gordura e fast food, mas não consegue mais. “Passei a gostar mais de proteínas, como carnes magras e ovos, e verduras e legumes. Antes, meu almoço tinha uma boa porção de arroz e feijão, mas, hoje, é mais carne, salada e verduras”, garante.
A consultora conta que, muitas vezes, nem come arroz e feijão, só proteina e salada, além de não tomar mais refrigerante e consumir pouquissima bebida alcoólica. “Se eu bebia 12 latinhas de cerveja em uma festa, hoje bebo duas no máximo. Como não compro mais, meu filho e meu marido também deixaram de comer besteira, pois opto por cozinhar coisas mais saudáveis”, diz. Ela ressalta que deixou de visitar seções de doces ou massas no supermercado.
Hoje, Fabiana visita apenas seções de hortifrutigranjeiros e carnes. A quantidade de comida consumida também caiu muito. “Se eu comia umas 200 ou 300 gramas de comida no almoço, agora como 100 gramas. Quando eu vou comer, sinto ja que eu estou cheia e não consigo comer como antes. Diminui um terço mais ou menos do que eu comia antes”, afirma. Quando vai comer, ela busca mais produtos ricos em vitaminas, nutrientes e proteina. Com isso, suas compras mensais, que somavam mais de R$ 1 mil por mês, agora estão entre R$ 500 ou R$ 600, queda de quase 50%. “Eu comprava muita coisa superflua que não compro mais. Todo mundo lá de casa também mudou os hábitos”, garante.
‘Comida de verdade’
A cabeleireira Geyse Caldeira de Souza usa Mounjaro desde maio de 2025 e gasta cerca de R$ 1 mil por mês para perder peso. O resultado foi uma queda drástica no consumo de bebidas alcoólicas e comidas pedidas pelo delivery, como sanduíches e pizzas. “Deixei de gastar quase R$ 2 mil mensais com comidas delivery e bebidas alcoólicas. Hoje, como comida de verdade e compro mais whey, creatina e academia. Precisei refazer meu guarda-roupas”, afirma.
A opção por comidas mais saudáveis fez a cabeleireira comer junto com a mãe, tudo feito em casa, o que reduziu as despesas com alimentação fora de casa. “Gasto mais com frutas, verduras e legumes e não consumo mais refrigerantes. No balanço, hoje economizo mais”, diz.
Para Sirlei do Couto, presidente da Associação Goiana de Supermercados (Agos), quem usa estes medicamentos está mudando hábitos ao consumir produtos mais saudáveis, como frutas, verduras e proteinas como carnes, frango e ovos, além de suplementos, que tiveram aumento das vendas. Ao mesmo tempo, produtos como arroz, feijão e massas tiveram leve queda nas vendas.”Tivemos aumento no consumo de proteínas como frango, enquanto o consumidor está comprando menos arroz, macarrão e farinhas”, conta.
Couto diz que já pensa em oferecer para seus clientes porções de carnes em bandejas menores, além de verduras, frutas e legumes já picados. “As pessoas buscam quantidades menores e muita gente não bebe mais bebidas alcoólicas e refrigerantes.”
Por isso, ele admite a necessidade do varejo se adaptar a esta tendência, começando a vender suplementos e produtos fitness que são autorizados, pois essas pessoas também estão indo mais para academias. “A Abras trabalha junto ao Congresso para aprovar o projeto de lei que permitirá uma seção de farmácias dentro dos supermercados, como açougue ou padaria. Grandes redes já querem ter sua própria farmacia”, destaca.
O presidente da Agos acredita que o projeto caminha para aprovação, apesar da briga com grandes redes de farmácias. “O supermercadista já tem o ponto comercial e vai atrair este público que está comprando este e outros medicamentos. Também será bom para o consumidor a maior concorrência”, acredita.
O supermercadista José Elias de Paula, do supermercado Super Zé, conta que a venda de arroz já caiu 50% e o consumidor também tem reduzido as quantidades de alimentos adquiridas, sem estocar. “Ele também está levando mais frutas, escolhe uma carne melhor e reduziu o consumo de álcool, como cervejas”, destaca. Para o varejista, a maior tendência é a preocupação com a saúde, que mudou hábitos alimentares, além do melhor poder aquisitivo. “Já estamos investindo em produtos mais naturais, proteicos e barras de cereais, por exemplo. É o futuro”, diz o empresário.
Para o escritor e consultor de Varejo Geraldo Rocha, não há uma mudança de hábitos de consumo generalizada, mas uma tendência. Como toda tendência, há um pico de absorção, que, depois, se estabiliza e volta ao normal. “Emagrecimento está na boca e no estilo de vida. A caneta não resolve pra sempre e temos os efeitos colaterais e sequelas, que ainda não são conhecidos. É como a cirurgia bariátrica, onde a pessoa pode voltar ao peso anterior”, adverte.
Apesar da tendência atual, com redução no consumo de carboidratos, Rocha lembra que o remédio ainda é muito caro e a grande massa da população não tem como acessá-lo. Mas o varejista pode tirar disso uma lição: existe um movimento de mudança de estilo de vida e até as classes mais pobres querem mudar a alimentação. “No geral, as pessoas estão comendo mais verduras e legumes e bebendo mais vinhos e menos cervejas e refrigerantes”, alerta.
Por isso, o supermercadista deve se antecipar ao futuro, e não apenas para uma tendência momentânea. O supermercado pode oferecer degustações para estimular o cliente a conhecer novos tipos de produtos, como legumes e verduras semi processados, que proporcionam uma margem maior que dos in natura. “Até uma embalagem mais convidativa incentiva o consumo. Ter um espaço mais instagramável na loja também ajuda”, recomenda.
Fonte: O Popular
