
Com a maior dificuldade de contratação e grande rotatividade, empresas e responsáveis por RH ampliam vantagens aos trabalhadores
A escassez e a alta rotatividade da mão de obra se tornaram um dos maiores desafios para as empresas do comércio hoje. A dificuldade, cada vez maior, para captação e retenção de funcionários tem levado as empresas a ampliarem seus canais de divulgação de vagas e a oferecerem mais benefícios, como plano de saúde, vale alimentação e até folgas adicionais. Algumas já anunciam até a possibilidade de escala 5×2.
A ordem é evitar a fuga de mão de obra, num cenário de baixo desemprego, onde o trabalhador viu o seu poder de esco-Iha aumentar. O tempo de permanência no emprego caiu cerca de 27% entre 2021 e 2026, dificultando a retenção, e a taxa de rotatividade no Brasil está em 34,74%, de acordo com estudo da consultoria Tendências reali-zado com base nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Hellen Brenda Sampaio, da Corporee Thalentos, que trabalha com recrutamentos e diagnósticos em empresas, conta que este cenário tem levado o trabalhador a escolher mais a função, participando de vários processos seletivos ao mesmo tempo, por isso está mais difícil recrutar. “Se não faço todo processo seletivo no mesmo dia, no outro dia a pessoa já não quer mais porque se comprometeu com outra”, destaca.
Muitos que mandam currículo, no primeiro instante já perguntam qual será o salário. “Hoje, é o candidato que quer me entrevistar primeiro para saber quais benefícios terá. Por isso, já de cara informo o salário, o horário e os dias de folga para eliminar quem não tem interesse e não perder tempo”, explica.
A maior parte das pessoas faz o questão da folga fixa aos domingos, principalmente quem tem filhos pequenos, o que é mais difícil no comércio. Hellen Samil paio, que é responsável pelo recrutamento de pessoal para a o distribuidora de alimentos Rosa er de Ouro, conta a empresa tem vagas para funções como auxiliar de depósito abertas há meses, onde há alta rotatividade, mesmo com benefícios como plano saúde completo e vale alimentação de R$ 800.
Como a distribuidora faz pesquisa de antecedentes, ainda não conseguiu uma pessoa com as qualificações necessárias para preencher uma vaga de serviços gerais com foco em jardinagem, aberta há meses. “Quando encontramos alguém que tem todas as qualificações, ele não tem um bom histórico”.
Nos supermercados, a recrutadora ressalta que uma das maiores dificuldades é preencher vagas para açougueiro e padeiro. Por conta disso, ela ressalta que as empresas estão oferecendo mais benefícios aos empregados. “Supermercado que não oferece benefícios, como plano de saúde e alguma ajuda na alimentação, acaba perdendo o funcionário”, alerta.
O supermercadista Joaquim Batista Filho, proprietário de um supermercado e um empório em Goiânia, tem dez vagas abertas para funções, como operador de caixa, repositor de mercadorias, açougueiro e padeiro. Algumas não são preenchidas há meses, prejudicando a operacionalização e o atendimento. Para ele, está mais difícil preencher por conta dos auxílios dados pelo governo e da opção do trabalho em aplicativos de transporte e de alimentação, onde a pessoa não tem que cumprir horário e não tem chefe.
“Estamos sendo obrigados a comprar produtos de panificação prontos e congelados e, no açougue, fazemos mais embalagens para autoatendimento”, destaca o empresário, que também já instalou dois self check out em uma das lojas. A outra ganhará quatro, em breve. “De cinco caixas, quatro serão sem operadores”, conta.
Além de falta de mão de obra, Batista ressalta a falta de compromisso dos trabalhadores atuais. “Eles pegam atestados para emendar feriados e muitos faltam e nem avisam. Já tivemos que deixar a lanchonete fechada porque os funcionários faltaram”, lembra. Para tentar reduzir o problema da rotatividade, ele aumentou os benefícios e paga até bônus para quem não faltar. Os benefícios também incluem alimentação subsidiada, plano de saúde e plano odontológico. “Quem não falta, não tem o vale transporte e a Previdências descontadas”, diz.
Edna Costa gerente de Recursos Humanos da rede Costa Atacadão, informa que a companhia hoje está com 30 vagas para suas lojas. Segundo ela, a maior rotatividade está entre a geração mais jovem, na faixa de 20 aos 25 anos. “Muitos não que-rem ser efetivados como CLT. Querem se for PJ, sem vínculo empregatício, independente de idade”, conta.
Para captar e reter mais mão de obra, a empresa faz várias campanhas de benefícios, que incluem vale alimentação para todos, parceria com faculdades e incentivo de plano de carreira, onde o funcionário pode entrar como repositor ou estoquista e chegar a gerente de loja. “A empresa investe muito no plano de desenvolvimento interno e no projeto Multiplicação, onde to-dos colaboradores se encontram uma vez por semana, para falar sobre as demandas e receber orientações.
“São 5 projetos de desenvolvimento para garantir o crescimento e a retenção, que resultaram em 270 promoções no ano passado em todas as linhas, tanto para administrativo, quanto gerente de loja. Apesar do varejo funcionar de segunda a segunda, com regime de escala, Edna lembra as oportunidades con-tam com várias opções de horário, que vão de escalas 12×36 e de 6 horas, 7h20 e 8 horas por dia, de acordo com o setor de trabalho e as necessidades.
Para Augusto Almeida, superintendente da Associação Goia-na de Supermercados (Agos), nunca houve uma taxa de desemprego tão baixa e tanta concorrência por mão de obra. “Como o varejo alimentar vive de atendimento, apesar da automatização de alguns processos, a situação está bem complicada”, destaca. Por isso, oferecer benefícios e salários melhores é uma forma de atrair mão de obra. “Enquanto se propõe jornada diferenciada no Congresso, a negociação de jornada já começou nas empresas”, diz.
As redes que oferecem mais vantagens, acabam tendo um diferencial competitivo, por isso os benefícios tendem a ser oferecidos por cada vez mais empresas. Almeida alerta para a dificuldade de reduzir a jornada de trabalho nos supermercados, que trabalham com margens reduzidas e qualquer aumento de equipe tem impacto nos custos e preços dos produtos. “Precisamos discutir produtividade e a sustentabilidade econômica”, alerta.
Segundo ele, a Agos já trabalha uma solução para melhorar o ambiente de trabalho nos supermercados, que abrigam um grande número de jovens no primeiro emprego e acolhem a diversidade. O objetivo é atender as novas regras da NR1, que cuidada saúde mental do trabalhador e que também deve ajudar na retenção de mão de obra.
Fonte: O Popular
