
Alta nacional da carne, impulsionada por oferta menor e exportações aquecidas, se soma ao avanço de itens essenciais e encarece as compras nos supermercados de Goiás
“Está tudo muito caro. A gente vai ao mercado, compra menos e paga mais. O dinheiro não rende como antes. Quando termina de pagar o básico, quase não sobra nada para o resto do mês.” O comentário da odontóloga Marise Neiva, em Goiânia, resume uma percepção que se espalhou pelas casas e pelos caixas dos supermercados em Goiás: o aperto no bolso deixou de ser pontual e passou a organizar a rotina das famílias.
Em Goiânia, a cesta básica subiu 3,98% em março e passou a custar R$ 760,44, segundo a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, do Dieese. O valor já consome 50,72% do salário mínimo líquido, o equivalente a 103 horas e 13 minutos de trabalho apenas para garantir os alimentos essenciais do mês. Antes de aluguel, energia, água, transporte, gás ou remédio, mais da metade da renda já fica no supermercado.
A carne bovina voltou a pesar no bolso, mas não sozinha. A alta é nacional. No atacado, o preço médio da carne bateu R$ 25,05 por quilo em abril, o maior valor da série do Cepea/Esalq-USP desde 2001. O valor ficou 11% acima do registrado há um ano e quase 45% maior do que em abril de 2024. Segundo o Cepea, a pressão vem da menor oferta de animais para abate no início do ano e do avanço das exportações, que reduzem a oferta no mercado interno.
Em Goiás, a pressão também começa no campo. O preço médio do bezerro subiu 22,9% em um ano e passou de R$ 3 mil por cabeça em fevereiro, segundo a Secretaria de Agricultura de Goiás. Ao mesmo tempo, o Estado ampliou as exportações de carne bovina, o que ajuda a manter a demanda aquecida. E o aperto no bolso não vem só da carne: em março, em Goiânia, o tomate subiu 25,57% e o feijão carioca, 15,69%, segundo o Dieese. Na prática, a cesta ficou mais cara de ponta a ponta.
Há ainda um agravante local: a diferença de preços entre supermercados. Levantamento do Procon Goiânia, realizado entre 10 e 13 de abril, identificou variação de até 125,88% em itens da cesta básica na Capital. Na prática, dependendo do bairro ou do estabelecimento, o mesmo produto pode custar muito mais.
O presidente da Associação Goiana de Supermercados (AGOS), Sirlei Couto, afirmou ao Diário de Aparecida que o varejo tenta absorver parte da pressão, mas a cadeia de custos segue pesando. “O efeito mais imediato aparece no transporte, especialmente com o diesel, mas também atinge produtos ligados a trigo, óleos vegetais, fertilizantes e proteínas”, disse. Para o contador Marcelo Marques, ouvido pelo jornal, a leitura é direta: “Quando a cesta sobe inteira, a carne vira apenas o rosto mais visível. A família corta supérfluos, troca proteína, reduz a quantidade e começa a empurrar despesas no cartão.”
Gás caro e crédito alto ampliam aperto fora da gôndola
O impacto no supermercado pesa ainda mais porque encontra um ambiente de renda comprimida e crédito caro. Em março, a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas chegou a 61,5% ao ano, segundo o Banco Central. No mesmo período, o endividamento das famílias brasileiras alcançou 49,9% da renda acumulada em 12 meses. Em Goiânia, até o botijão pressiona. Pesquisa do Procon Goiás apontou variação de pouco mais de 27% no preço do gás de cozinha de 13 quilos, com valores entre R$ 98 e R$ 125. Para Marcelo Marques, a conta fecha pior por todos os lados: “A carne sobe, o feijão avança, o gás encarece e o crédito continua caro.” Hoje, o supermercado virou o retrato mais visível da perda de poder de compra em Goiás.
Fonte: Diário de Aparecida
