Em Destaque · 02 julho 2026

Plataformas que conectam profissionais autônomos e empresas para ‘missão’ remunerada por hora ampliam adesões ante dificuldade de contratação

Foto: Divulgação

A atual dificuldade para contratação de mão de obra para o comércio varejista tem contribuído para a expansão dos aplicativos que conectam profissionais autônomos às empresas para a realização de trabalhos pontuais. O trabalhador se cadastra na plataforma, onde são oferecidas horas de trabalho em dias específicos em determinados estabelecimentos, e aceita a “missão” que melhor the convier. O pagamento é por hora trabalhada e é feito logo após a realização do trabalho.

Um destes aplicativos que atuam em Goiânia é o Anthor, que nasceu da identificação de uma oportunidade de mercado, quando o CEO de uma grande indústria desabafou sobre a dificuldade de gerenciar promotores de vendas e sugeriu que precisava de um serviço “estilo Uber”, onde pudesse chamar profissionais sob demanda. Seria uma nova categoria de serviço, que visa transformar a maneira que as pessoas trabalham e permitir flexibilidade e aumento de renda.

De acordo com a assessoria da Anthor, o modelo gera valor para os trabalhadores autônomos ao entregar liberdade e autonomia para gerir a própria agenda, trabalhando quando e onde quiser. “Além de proporcionar capacitação, o aplicativo funciona como uma oportunidade de renda extra e possibilita ganhos maiores por hora trabalhada, em comparação ao mercado de trabalho tradicional”, destaca.

Para as empresas, em um cenário onde o mercado vive um verdadeiro “apagão de mão de obra”, a Anthor promete conectar a milhares de pessoas. “Esses profissionais utilizam o aplicativo tanto para gerar renda extra, quanto como trabalho exclusivo, e preferem a Anthor por ser mais conveniente e flexível do que as amarras de um trabalho fixo tradicional”, explica. Além de garantirem que nunca faltará braço na operação, as empresas ganham economia e simplicidade no atendimento das demandas, fazendo com que as despesas com pessoal passem a flutuar de acordo com a receita e a demanda real.

Tudo acontece via tecnologia, onde a empresa cadastra a necessidade, que é chamada de “missão” na plataforma. Com o geolocalização e filtros inteligentes, o aplicativo disponibiliza as demandas aos autônomos, com a localização, o que fazer, quanto paga, etc. O profissional escolhe quais missões, faz a reserva e comparece ao cliente. Tudo é acompanhado em tempo real e a empresa só paga pelo que foi efetivamente executado.

De acordo com a Anthor, o modelo se distancia do formato celetista tradicional (CLT), que engessa o trabalhador em jornadas fixas de oito horas. “Conectamos as empresas a profissionais autônomos. Os usuários do aplicativo têm total independência para aceitar, recusar e montar suas próprias rotinas de trabalho, o que caracteriza a relação de prestação de serviços autônoma e flexível”, ressalta a assessoria da plataforma.

A entrada dos profissionais na plataforma ocorre de forma 100% digital. “O trabalhador autônomo baixa o aplicativo, faz seu cadastro e passa por um processo de análise e aprovação por meio de filtros inteligentes da plataforma. Isso permite escalar a base rapidamente e garantir que milhares de pessoas qualificadas possam atender às missões das empresas”, completa.

A Anthor chegou a Goiás há poucos meses e a plataforma já conta com 2.945 cadastros de usuários profissionais autônomos na região, que já realizaram mais de 8.500 missões no estado. O número de clientes vem crescendo gradativamente, porém a empresa não divulga o número exato de empresas que usam o serviço. O aplicativo já ultrapassou a marca de 258 mil cadastros no País, atuando em quase todos os estados.

Entre as funções mais demandadas estão operadores de caixa, repositores e auxiliares de depósito, padaria e limpeza. “A demanda pela solução da Anthor tem registrado um ritmo de crescimento exponencial. A plataforma multiplica de tamanho algumas vezes a cada ano”, destaca. Para a Anthor, o modelo de negócio se consolidou como um porto seguro para as empresas diante do atual apagão de mão de obra. “Por isso, ele avança em velocidade impressionante”, afirma a assessoria do aplicativo, que pode ser utilizado por empresas de todos os tipos e portes. Além de supermercados, ele já atende desde padarias, drogarias, postos de combustível e lojas de roupas, até indústrias, empresas de logística e centros de distribuição.

Ludmila Ribeiro dos Santos é uma das trabalhadoras cadastradas na Anthor, desde dezembro do ano passado. Ela conta que já fez trabalhos como repositora, mas hoje atua como operadora de caixa. “Quando a empresa precisa, eles disponibilizam a missão no aplicativo em todos os dias da semana. Você entra, aceita e comparece no local”, explica. Quando chega ao supermercado, o encarregado entra no aplicativo, escaneia um código e dá início à missão, que pode ser de 4, 6, 8 ou 10 horas.

Carga horária

A carga horária pode ser ampliada, caso a loja necessite e o trabalhador concorde. Ela conta que pode prestar serviço em mais de um supermercado. “Geralmente, faço 8 horas por dia, mas já cheguei a fazer 12 horas, pois recebo por hora trabalhada”, informa. Quando a missão se encerra, o encarregado abre o aplicativo, lê o QRCode, finaliza e o pagamento é feito. “Não acho mais confortável o trabalho CLT. Apesar do plano de saúde e do INSS, não compensa pelo valor do salário. Como caixa, recebo R$ 15 a hora e o CLT é menos da metade”, explica Ludmila. Mas ela reconhece que, para ganhar mais, acaba trabalhando mais.

Para o superintendente da Associação Goiana de Supermercados (Agos), Augusto Almeida, esses aplicativos de contratação de freelancers são uma tendência que veio para ficar. “Para os supermercados, eles podem ser uma solução interessante para atender picos de demanda e dar mais flexibilidade na gestão das equipes. Para muitas pessoas, representam a oportunidade de trabalhar nos dias e horários que forem mais convenientes”, acredita.

Segundo ele, esse modelo vai ao encontro da proposta defendida pelo presidente da Abras, João Galassi, de discutir formas mais flexíveis de contratação, inspiradas em experiências já adotadas nos Estados Unidos, como alternativa às mudanças nas jornadas de trabalho. Mas ele admite que, embora ajudem a preencher vagas, essas plataformas podem acabar precarizando as relações de trabalho, reduzindo a proteção previdenciária e incentivando a pejotização. “O desafio é aproveitar a inovação sem abrir mão da segurança jurídica e da proteção do trabalhador”, alerta.

A advogada trabalhista Juliana Mendonça lembra que o trabalhador eventual presta serviço de forma esporádica, sem habitualidade, para tomadores diferentes. Já o trabalhador autônomo tem autonomia real: define preço, horário e modo de execução. No caso dos aplicativos de trabalhos pontuais, ela acredita que é mais complicado. “Se ele fixa o valor, define as condições e controla a execução, a autonomia é fictícia e há o risco de reconhecimento de vínculo”, alerta.

Segundo ela, este é o mesmo risco do motorista de aplicativo, com algumas decisões favoráveis e outras contra. A advogada explica que, apesar da suposta autonomia, existem algoritmos que obrigam o motorista a não ficar muito tempo sem logar na plataforma ou sem aceitar corridas. “Quanto mais ele aceita, mais bonificação tem, mais atinge números melhores e vai tendo vantagens no aplicativo. Essa foi considerada uma subordinação jurídica em alguns casos julgados para reconhecer o vínculo de emprego dos motoristas”, cita.

Fonte: O Popular